PROSAS EM VERSOS

SER POETA, É SENTIR AFLORAR DA PELE SENSIBILIDADE, É OUVIR O GRITO DOS QUE NADA DISSERAM, É VER POR UMA GAMA DE CORES INVISÍVEIS À MACROSCÓPICA VISÃO DOS INSENSÍVEIS, É PENETRAR IMPIEDOSAMENTE À ALMA HUMANA.

sábado, 28 de julho de 2012

Inicio, Meio e Fim




Claudio Caldas Faria




Hoje eu vi o sol partir,
Vi a lua se despedir,
Mas não vi você chegar!
Senti a brisa soprar,
O mar se acalmar,
Mas não pude te tocar!

Hoje a lua se escondeu,
O sol não me aqueceu,
Senti o frio do vazio do que é não ter você,
Meus olhos rasos d´agua,
Perdia-se em meio às lágrimas,
Não queria te perder!

Mas não pude evitar,
Foi destino meu, azar,
Você partiu sem avisar,
Não quis acreditar!

Hoje não vejo mais a lua,
Já não passo naquela rua,
Onde tenho lembranças suas,
A verdade é cruel nua e crua!

Adeus! Não precisa me explicar,
Não vou mais chorar,
Pode ir embora,
ou sofrer nesta hora,
Mas a vida é assim,
Tem inicio meio e fim!

*Autor: Cleilton F. Vieira

Quimeras







Aníbal Bastos




Abençoado dia em que nasceste,
A luz brilhante sempre o ilumine
Que a tristeza nunca o contamine,
Nem o fustigue frio vento agreste!

O Norte, o Sul, o Este e Oeste,
Louve a natureza, mãe sublime,
Por permitir à Terra que germine,
No seu ventre uma fada celeste!

Acorda! Oh coração adormecido
Que pela ilusão foste seduzido,
E, julgas ser o mais feliz dos mortais!

Não há na terra fadas verdadeiras,
As paixões são quimeras passageiras
Que nos deixam saudades e pouco mais!

A. Bastos (Júnior)

O Morcego




Maria Salete Ariozi



Meia-noite. Ao meu quarto me recolho. 
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede: 
Na bruta ardência orgânica da sede, 
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. 

"Vou mandar levantar outra parede..." 
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho 
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho, 
Circularmente sobre a minha rede! 

Pego de um pau. Esforços faço. Chego 
A tocá-lo. Minh’alma se concentra. 
Que ventre produziu tão feio parto?! 

A Consciência Humana é este morcego! 
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

Augusto dos Anjos

Meus olhos veem, minha alma chora



Maria Salete Ariozi




Meus olhos veem
Minha alma chora.

Nesse incessante olhar
Que não sentem
Mas veem,
Numa alma que não vê
Mas sofre e sente.

Meus olhos veem
Minha alma chora.

Na busca da perfeição
Perdi meu olhar
Tremulo, inseguro,
Tampouco minha alma sente
Perfeito que seja meu olhar.

Meus olhos veem
Minha alma chora.

E nos olhos que veem
E na alma que sente
Procuro, busco e rebusco
Outra visão do olhar
A paz sofrida da alma.

Meus olhos veem
Minha alma chora.

Sinto-me tão cansado,
Sem ânimo que eleve
Meu olhar perdido
Ou alma que revele
Sentimentos idos.

Meus olhos veem
Minha alma chora

M.A.Vaz da Silva Augusto

Formigas




Maria Salete Ariozi



Subiram no meu pé
pensaram que fosse um pé de árvore
não me importei com as formigas subindo pelos meus braços
passeando no meu nariz
escalando as rugas da minha testa
brincando de esconde-esconde nos meus cabelos

não havia pêssegos
por isso elas desceram
cruzaram a grama
voltaram ao formigueiro

voltei pra casa
encontrei uma folha no travesseiro
outra no banheiro
ao pentear os cabelos
flores caíram, flores de pessegueiro

Suzana Mafra

Renda-se




Maria Salete Ariozi



Entre sonhos, meu coração quieto repousa. 
A lua me absorve com seu prateado manto 
Com magia, sedução, envolvente dança 
Etérea, derrama lentamente seu encanto. 

Então, arde uma fogueira dentro em mim 
Nem a cálida noite pode apaziguar 
É fogo que lambe e consome a lucidez 
Rasga-me o peito, alucina, faz delirar. 

No exílio da nossa varanda eu espero 
Porque quero os sabores que sonhamos 
E o sonho espesso que acalentamos 

Nesse santuário de amor, hoje quero.
Extrapolar os limites , ser-te só oferenda. 
Ver-te livre, render-se as minhas rendas.

Gloria Salles

Quando Criança..



Maria Salete Ariozi




...Quando Criança, sempre esperava 
por uma história de cinderela, 
sem gatas borralheiras, 
longe de lobizomem,
Cheia de cartolas mágicas, 
com muito chocolate gostosos ! 
e claro ! 
Ainda sonhava com Um Belo Principe 
montado em seu cavalo branco 
Para o final ser feliz !! 
Aí eu adormecia ... esperando... 
esperando...esperando...rsrs

((Salete))

Rifa




Maria Salete Ariozi




Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade
está um pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente
que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado,
coração que acha que Tim Maia estava certo
quando escreveu... "não quero dinheiro,
eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".
Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece,
e mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações
e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste
em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que,
abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado
indicado apenas para quem quer viver intensamente e,
contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida
matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:
" O Senhor poder conferir", eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro
que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que,
ainda não foi adotado, provavelmente,
por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar, mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário
a publicar seus segredos e, a ter a petulância
de se aventurar como poeta.

Clarice Lispector

Meu Destino.



Angela Mendes




Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.

Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.

Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.

Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...

Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.

Esse dia foi marcado
com a pedra branca da cabeça de um peixe.

E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...

(Cora Coralina)

Conto De Fadas.




Fatima Pessoa




Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita.

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A princesa de conto: "Era uma vez..."

Florbela Espanca


Dia 233.



Mô Schnepfleitner




Ao contrário do que pensas, sei de ti muito mais do que de mim. Por isso te acordo, te dispo, te beijo. Por isso te amo. E adivinho na temperatura do teu corpo a hora impetuosa do desejo. Sei a cor do mármore dos teus músculos. Como o crânio das árvores, a tua cabeça floresce de muitas palavras, as tuas mãos falam, os teus limites respiram. Quando os teus dedos desejam a água, queimam a água e cantam a água. Tornam sagrado o vermelho das palavras. Movo-me feliz nos corredores da tua respiração, escrevo-te com o orgulho que têm as roseiras e os lilases, a ti me entrego, em ti me afogo, de ti renasço para a vida todos os dias. E, por ti, sou caçador de mim. E sou de mim o bobo e de ti o paladino. A minha juventude morreu antes de ti, mas só depois de ti a minha vida é realmente jovem. No meu corpo o teu sangue se agita, no teu espírito floresce o meu, nas nossas bocas se prolonga a primavera, quando a felicidade é para nós tão alta como o voo do pássaro que tem sede e tem fome de céu.

Joaquim Pessoa in ANOCOMUM


Brinde formulado




Jorge Morais



brinde formulado
num copo entornado
cujo teor ficará
para sempre guardado
vendaval anunciado
num recipiente alagado
copo exposto
ao tornado anunciado
sem que houvesse precaução
ao vendaval televisionado
na noite entrada
a mente toldada
desejos e anseio
aos outros formulada
porque a nitidez
do olhar ofuscada
deixa no fim
o copo cheio
de nada


jorge morais

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